domingo, 18 de janeiro de 2015

#002

Era alto e atraente. Forte e bonito. Talvez isso, somado a sua gentileza e inteligência, fossem seus pontos fatais para derreter o coração de qualquer um. Também havia seus lindos sorrisos, tinha uma para cada situação diferente. Era um garoto que chamava atenção. Joseph. Um nome digno para combinar com aquela criatura.

A única coisa que não combinava com ele era o fato de ser tão só. Tinha um pequeno grupo de amigos na escola, porém sempre ia pra casa sozinho e não saía de lá nem nos finais de semana. Por morar em uma cidade pequena, vários boatos sobre ele e a família corriam as ruas. Alguns diziam que os pais de Joseph, os Climbaeriam, eram muito ocupados e viajavam tanto que não paravam em casa, não tinham tempo para se dedicar ao filho. As más línguas diziam que eram loucos e que estavam internados em algum hospital muito longe dali. Agora eu, uma pessoa qualquer apenas observando e ouvindo a história, não sabia o que pensar dele.

Há algum tempo em que venho pensando sobre isso. Venho pensando no por que de Joseph ser alguém obscuro quando saía da escola, alguém que se esconde e que esconde algo, alguém que parece suspeito. E esse seu comportamento é o motivo pelo qual eu venho seguindo e observando ele. Faço isso, pois quero saber quem ele realmente é e não quero me deixar levar pela maldade do pensamento de alguns. Existem pessoas de vários tipos em uma cidade pequena e devo dizer que muitas delas quando se deparam com algo que não é casual, a rejeitam. Eu queria um motivo para que pudesse rejeitar esse tal de Joseph. Só observando e descobrindo sobre ele, eu poderia ter minhas respostas, e quem sabe, essa fascinação pelo menino misterioso passasse. Devo comentar que ficar perto dele era algo nocivo à saúde mental e visual. Eu o seguia por aproximadamente dois meses e durante esse tempo algo crescia dentro de mim: uma admiração, uma paixão.

Olhando-o de perto, cada dia mais, parecia que eles e seus amigos guardavam um grande e perigoso segredo. Se já tinha algo que em seu mistério que me atraia, e isso com certeza me trouxe para mais perto, sendo mais atenta, ouvindo e vendo mais. Criei ouvidos e olhos pelo colégio, não deixando que passasse nada, afinal de contas, além de curiosa estava apaixonada. Passei a ver que durante os intervalos, ele tomava alguns remédios e que, durante as aulas ou até em momentos que exigiam mais concentração, ele tinha alguns tiques nervosos. Por exemplo, durante os testes ou quando praticava esportes, piscava os olhos repetidas vezes, mais que o necessário, ou estalava a língua no céu da boca. Ele tentava ao máximo manter suas manias discretas e despercebidas, e de fato eram.

Mais tempo se passou até que percebesse minha presença, talvez só tivesse me visto por estar atrás dele o tempo todo. No começo, nós trocávamos olhares, e comecei a ficar preocupada com o isso significava. Podia ser que isso indicasse que estava com medo, que soubesse o que eu estava fazendo ou que eu representasse alguma ameaça. Porém, depois dos olhares, vieram os sorrisos, no inicio pequenos e disfarçados, depois, arrebatadores e calorosos. Depois dos sorrisos, vieram as palavras. Começaram com um “oi” aqui e ali, sem preocupação, para virarem conversas concretas, perguntado o que faria depois da aula. Percebi que era tímido e que tanta desconfiança sobre ele e sua família nada valiam. Suas conversas eram bem encaminhadas e sempre leves e engraçadas, nada me fazia desconfiar sobre as palavras pesadas que já tivesse ouvido sobre ele e os pais. Ele parecia ser normal. Comecei a entrar em seu círculo de amigos e começamos a almoçar juntos. Seus amigos ficaram um pouco tensos com a minha aproximação repentina e tal tensão só aliviou minimamente quando minhas amigas vieram sentar junto com o grupo e eles perceberam que não era algo passageiro, ainda tinha muito a acontecer.

Mais ou menos um mês após eu me mudar para sua mesa de almoço, começamos a namorar. Estava sendo uma época memorável, onde amigos sempre se encontravam, riam, se divertiam, contavam segredos e quando estavam juntos era sempre especial. Essa realidade estava sendo mais duradoura do que parecia e eu e Joseph faríamos seis meses juntos. Saíamos muito só nós dois. Íamos ao cinema e víamos seus filmes mais estranhos, ao teatro e assistíamos às peças contemporâneas e clássicas, aos parques e suas gramas serviam para ver o céu, às bibliotecas e suas seções mais antigas e engraçadas. Passávamos muito tempo em minha casa também, jantávamos lá, víamos DVDs e jogávamos. Meus pais conheciam Joseph e gostavam muito dele, confiavam nele para estar comigo. Mas tudo tinha um “porém”, assim como nossa relação. O nosso “porém” era que Joseph ainda não havia me apresentado a sua família e nem eu havia conhecido sua casa. Já tínhamos falado sobre isso muitas vezes e ele sempre adiava o máximo possível, mas nessa semana não teve escape e ele me levaria na sua casa. Seria um jantar no sábado, na casa dele.

Era uma casa grande, com estilo campestre e um lindo e bem cultivado jardim na frente. O ar de fim de semana e de fim de tarde combinado fazia com que tudo parecesse calmo e refrescante. Joseph tinha ido me buscar para ir  ao jantar e chegando a sua casa, fomos recebidos pela sua tia. Ela era jovem, uns trinta anos no máximo, com longos cabelos castanhos e um sorriso amigável. Seu nome era Jane e parecia ser alguém bem alegre e leve, ao contrário de todas as especulações sobre os Climbaeriam. O jantar estava arrumado na mesa da sala, o cheiro exalando e os pratos grandes e bem distribuídos, me dando água na boca. Quando nos sentamos para comer, ainda não havia sinal dos pais de Joseph e nem Jane dava a entender que eles iriam se juntar a nós mais tarde, não foi dita nenhuma palavra sobre eles nem por Joseph e nem pela sua tia. Depois do jantar, Joseph pediu para que eu e Jane nos sentássemos no sofá que ele iria fazer uma surpresa. Jane era simpática e conversarmos sobre alguns assuntos bobos enquanto esperávamos por Joseph. Perguntei a ela onde ficava o banheiro e ela me disse que era no segundo andar e indicou a escada, ela completou dizendo que era fácil de achar.

Quando cheguei ao segundo andar, vi muitas portas e logo vi que o que Jane disse não era tão verdade. Comecei a abrir as portas com cuidado, tentando achar o banheiro, porém na terceira porta que abri algo estava errado. Era um cômodo sem móveis e com um fedor horrível que parecia impregnado ali. Logo vi o motivo do cheiro desagradável: três corpos no chão, se decompondo. Eu fiquei desesperada, sem saber o que fazer ou falar. Decidi voltar a procurar o banheiro. Quando o achei, vi que tinha que me acalmar e não poderia descer e encontrar com Joseph e Jane com um comportamento suspeito. Eu tinha visto algo que não era da minha conta, como se tivesse invadido a privacidade da família, uma privacidade assustadora. Lembrando-me do que havia visto, vomitei. Percebi que já deveria estar de volta no andar inferior, então saí do banheiro. Lá embaixo, Joseph ainda não estava na sala com a surpresa, então inventei uma história qualquer para Jane e fui embora. Não poderia ficar mais tempo naquela casa depois do que eu tinha visto.

Voltei para minha casa e chegando lá não respondi a nenhuma das perguntas de meus pais e me tranquei no meu quarto. Tomei um longo banho para tentar refletir sobre o que tinha visto. O que eu pensaria sobre Joseph agora? O que ele e sua família eram? De quem eram aqueles corpos? Por que mereceram aquele fim? Uma mensagem chegou ao meu celular depois que sai do banho. Era Joseph e dizia: “Foi o quarto, não foi?”. Essa mensagem me atormentou, pois se ele sabia o que eu tinha descoberto, corria o risco de ter um fim parecido com o daqueles corpos ou quem sabe o que me aconteceria.

Já era muito tarde e as ruas estavam silenciosas demais quando me convenci a dormir, levada pelo cansaço. Quando estava começando a relaxar e embarcar em um sono pesado, um barulho na minha janela me incomodou. Primeiro não me importei muito por achar que era o vento, mas o barulho se tornou insistente. Fui até a janela e com preguiça olhei pelo vidro. Lá embaixo estava ele. Suprimi o pavor que cresceu dentro de mim. Debaixo da minha janela, e falou:

-Hana, me deixe explicar tudo.

Eu tinha que entender ele, tinha que ter um motivo. Ele sempre foi alguém tão bom, tão doce, tão confiável, como eu não poderia escutá-lo? Afinal de contas, tinha que saber o que aconteceu, e a mesma curiosidade que me impulsionou a conhecer ele melhor, foi a mesma que me permitiu ir ouvir o que quer que fosse que ele tinha para falar. Desci as escadas e fui até o fundo da casa, no quintal, onde ele estava. Sentamos em um dos bancos que estavam ali, virados um para o outro. Respirando fundo, ele começou:

-Eu tinha dez anos quando isso aconteceu. Minha família era muito unida e nesse dia eu queria fazer algo especial para eles, para agradecer por estarmos juntos. Aproveitando que eu era sempre o primeiro a acordar, decidi que ia fazer um café da manhã, mas eu não sabia cozinhar. Lembrei então da nossa vizinha, que sempre foi muito alegre e gentil e resolvi pedir a ajuda dela pra arrumar esse café. E esse foi o grande erro. A vizinha que ela era na frente de todos não estava lá. Estava uma pessoa má e sem escrúpulos. Hana, ela me abusou sexualmente. Eu me lembro de como chorava e gritava e ele não me soltava. Eu só queria que minha mãe me ajudasse e que ela estivesse lá. Depois desse ato, ela fingiu que nada tinha acontecido e fez o café da manhã que eu tinha pedido para ela me ajudar. Ela disse que era para eu ser um bom garoto, para que eu levasse a comida e que eles comessem o quanto quisessem. Ela ainda ameaçou que se eu falasse para alguém o que tinha acontecido ou se eu comessem o tal café da manhã, consequências piores do que aquelas viriam.

“Eu voltei para casa e esperei meus pais e meu irmão acordarem. Lembro-me deles levantarem e verem aquele lindo café e abrirem sorrisos enormes. Eles me chamaram para comer o delicioso café da manhã, mas eu disse que não, com medo do que a vizinha tinha falado. Lembro-me de ver todos eles satisfeitos, me agradecendo, eles felizes. Por fim, lembro-me deles dizendo que acabaram comendo muito e que iriam descansar. Até hoje eles descansam. Aquela bruxa os envenenou. A polícia procurou por ela e a encontraram morta, seu corpo no fundo de um rio. A única coisa que eu agradeço ter acontecido. Eu não aceitei a morte de meus pais e do meu irmão, eu fiquei sozinho. A tia Jane veio para cuidar de mim e eu fiz um único pedido: que ela deixasse meus pais e meu irmão dormindo, na nossa casa. Não suportaria vê-los enterrados, eu sinto que tudo o que aconteceu é culpa minha. Ainda hoje tomo remédios para controlar a ansiedade, depressão e tantas outras coisas que me atormentam. Então Hana, é isso que eu tenho como resposta para o que você viu, é essa a verdade que te ofereço. É você acreditar ou não. Se você preferir pode buscar a verdade você mesma, mas espero que acredite em mim.”

Eu olhei nos olhos de Joseph. Eles estavam cheios de lágrimas e eu via dor, muita dor. A dor de alguém que perdeu tudo sem ter culpa, a dor de alguém que escondeu isso de todos para que não se sentisse mais culpado do que já era. O que diria a ele? O que eu poderia dizer? Eu não sabia de nada, esta era apenas a ponta do iceberg. Estava em minhas mãos o que aconteceria em seguida. Bastava eu acreditar ou não. Isso era tudo.



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