Era alto e atraente. Forte e bonito. Talvez isso, somado a
sua gentileza e inteligência, fossem seus pontos fatais para derreter o coração
de qualquer um. Também havia seus lindos sorrisos, tinha uma para cada situação
diferente. Era um garoto que chamava atenção. Joseph. Um nome digno para
combinar com aquela criatura.
A única coisa que não combinava com ele era o fato de ser
tão só. Tinha um pequeno grupo de amigos na escola, porém sempre ia pra casa
sozinho e não saía de lá nem nos finais de semana. Por morar em uma cidade
pequena, vários boatos sobre ele e a família corriam as ruas. Alguns diziam que
os pais de Joseph, os Climbaeriam, eram muito ocupados e viajavam tanto que não
paravam em casa, não tinham tempo para se dedicar ao filho. As más línguas diziam
que eram loucos e que estavam internados em algum hospital muito longe dali.
Agora eu, uma pessoa qualquer apenas observando e ouvindo a história, não sabia
o que pensar dele.
Há algum tempo em que venho pensando sobre isso. Venho
pensando no por que de Joseph ser alguém obscuro quando saía da escola, alguém
que se esconde e que esconde algo, alguém que parece suspeito. E esse seu
comportamento é o motivo pelo qual eu venho seguindo e observando ele. Faço
isso, pois quero saber quem ele realmente é e não quero me deixar levar pela
maldade do pensamento de alguns. Existem pessoas de vários tipos em uma cidade
pequena e devo dizer que muitas delas quando se deparam com algo que não é
casual, a rejeitam. Eu queria um motivo para que pudesse rejeitar esse tal de
Joseph. Só observando e descobrindo sobre ele, eu poderia ter minhas respostas,
e quem sabe, essa fascinação pelo menino misterioso passasse. Devo comentar que
ficar perto dele era algo nocivo à saúde mental e visual. Eu o seguia por
aproximadamente dois meses e durante esse tempo algo crescia dentro de mim: uma
admiração, uma paixão.
Olhando-o de perto, cada dia mais, parecia que eles e seus
amigos guardavam um grande e perigoso segredo. Se já tinha algo que em seu
mistério que me atraia, e isso com certeza me trouxe para mais perto, sendo
mais atenta, ouvindo e vendo mais. Criei ouvidos e olhos pelo colégio, não
deixando que passasse nada, afinal de contas, além de curiosa estava
apaixonada. Passei a ver que durante os intervalos, ele tomava alguns remédios
e que, durante as aulas ou até em momentos que exigiam mais concentração, ele
tinha alguns tiques nervosos. Por exemplo, durante os testes ou quando
praticava esportes, piscava os olhos repetidas vezes, mais que o necessário, ou
estalava a língua no céu da boca. Ele tentava ao máximo manter suas manias
discretas e despercebidas, e de fato eram.
Mais tempo se passou até que percebesse minha presença,
talvez só tivesse me visto por estar atrás dele o tempo todo. No começo, nós
trocávamos olhares, e comecei a ficar preocupada com o isso significava.
Podia ser que isso indicasse que estava com medo, que soubesse o que eu estava
fazendo ou que eu representasse alguma ameaça. Porém, depois dos olhares,
vieram os sorrisos, no inicio pequenos e disfarçados, depois, arrebatadores e
calorosos. Depois dos sorrisos, vieram as palavras. Começaram com um “oi” aqui
e ali, sem preocupação, para virarem conversas concretas, perguntado o que
faria depois da aula. Percebi que era tímido e que tanta desconfiança sobre ele
e sua família nada valiam. Suas conversas eram bem encaminhadas e sempre leves
e engraçadas, nada me fazia desconfiar sobre as palavras pesadas que já tivesse
ouvido sobre ele e os pais. Ele parecia ser normal. Comecei a entrar em seu
círculo de amigos e começamos a almoçar juntos. Seus amigos ficaram um pouco
tensos com a minha aproximação repentina e tal tensão só aliviou minimamente quando
minhas amigas vieram sentar junto com o grupo e eles perceberam que não era
algo passageiro, ainda tinha muito a acontecer.
Mais ou menos um mês após eu me mudar para sua mesa de
almoço, começamos a namorar. Estava sendo uma época memorável, onde amigos
sempre se encontravam, riam, se divertiam, contavam segredos e quando estavam
juntos era sempre especial. Essa realidade estava sendo mais duradoura do que
parecia e eu e Joseph faríamos seis meses juntos. Saíamos muito só nós dois.
Íamos ao cinema e víamos seus filmes mais estranhos, ao teatro e assistíamos às
peças contemporâneas e clássicas, aos parques e suas gramas serviam para ver o
céu, às bibliotecas e suas seções mais antigas e engraçadas. Passávamos muito
tempo em minha casa também, jantávamos lá, víamos DVDs e jogávamos. Meus pais
conheciam Joseph e gostavam muito dele, confiavam nele para estar comigo. Mas
tudo tinha um “porém”, assim como nossa relação. O nosso “porém” era que Joseph
ainda não havia me apresentado a sua família e nem eu havia conhecido sua casa. Já
tínhamos falado sobre isso muitas vezes e ele sempre adiava o máximo possível,
mas nessa semana não teve escape e ele me levaria na sua casa. Seria um jantar
no sábado, na casa dele.
Era uma casa grande, com estilo campestre e um lindo e bem
cultivado jardim na frente. O ar de fim de semana e de fim de tarde combinado
fazia com que tudo parecesse calmo e refrescante. Joseph tinha ido me buscar
para ir ao jantar e chegando a sua casa, fomos recebidos pela sua tia. Ela
era jovem, uns trinta anos no máximo, com longos cabelos castanhos e um sorriso
amigável. Seu nome era Jane e parecia ser alguém bem alegre e leve, ao
contrário de todas as especulações sobre os Climbaeriam. O jantar estava
arrumado na mesa da sala, o cheiro exalando e os pratos grandes e bem distribuídos, me dando água na boca. Quando nos
sentamos para comer, ainda não havia sinal dos pais de Joseph e nem Jane dava a
entender que eles iriam se juntar a nós mais tarde, não foi dita nenhuma
palavra sobre eles nem por Joseph e nem pela sua tia. Depois do jantar, Joseph
pediu para que eu e Jane nos sentássemos no sofá que ele iria fazer uma
surpresa. Jane era simpática e conversarmos sobre alguns assuntos bobos
enquanto esperávamos por Joseph. Perguntei a ela onde ficava o banheiro e ela
me disse que era no segundo andar e indicou a escada, ela completou dizendo que
era fácil de achar.
Quando cheguei ao segundo andar, vi muitas portas e logo vi
que o que Jane disse não era tão verdade. Comecei a abrir as portas com cuidado, tentando achar o banheiro, porém na terceira porta que abri algo estava
errado. Era um cômodo sem móveis e com um fedor horrível que parecia impregnado
ali. Logo vi o motivo do cheiro desagradável: três corpos no chão, se
decompondo. Eu fiquei desesperada, sem saber o que fazer ou falar. Decidi
voltar a procurar o banheiro. Quando o achei, vi que tinha que me acalmar e não
poderia descer e encontrar com Joseph e Jane com um comportamento suspeito. Eu
tinha visto algo que não era da minha conta, como se tivesse invadido a
privacidade da família, uma privacidade assustadora. Lembrando-me do que havia
visto, vomitei. Percebi que já deveria estar de volta no andar inferior, então
saí do banheiro. Lá embaixo, Joseph ainda não estava na sala com a surpresa,
então inventei uma história qualquer para Jane e fui embora. Não poderia ficar
mais tempo naquela casa depois do que eu tinha visto.
Voltei para minha casa e chegando lá não respondi a nenhuma
das perguntas de meus pais e me tranquei no meu quarto. Tomei um longo banho
para tentar refletir sobre o que tinha visto. O que eu pensaria sobre Joseph
agora? O que ele e sua família eram? De quem eram aqueles corpos? Por que
mereceram aquele fim? Uma mensagem chegou ao meu celular depois que sai do
banho. Era Joseph e dizia: “Foi o quarto, não foi?”. Essa mensagem me
atormentou, pois se ele sabia o que eu tinha descoberto, corria o risco de ter
um fim parecido com o daqueles corpos ou quem sabe o que me aconteceria.
Já era muito tarde e as ruas estavam silenciosas demais
quando me convenci a dormir, levada pelo cansaço. Quando estava começando a
relaxar e embarcar em um sono pesado, um barulho na minha janela me incomodou.
Primeiro não me importei muito por achar que era o vento, mas o barulho se
tornou insistente. Fui até a janela e com preguiça olhei pelo vidro. Lá embaixo
estava ele. Suprimi o pavor que cresceu dentro de mim. Debaixo da minha janela,
e falou:
-Hana, me deixe explicar tudo.
Eu tinha que entender ele, tinha que ter um motivo. Ele
sempre foi alguém tão bom, tão doce, tão confiável, como eu não poderia
escutá-lo? Afinal de contas, tinha que saber o que aconteceu, e a mesma
curiosidade que me impulsionou a conhecer ele melhor, foi a mesma que me
permitiu ir ouvir o que quer que fosse que ele tinha para falar. Desci as
escadas e fui até o fundo da casa, no quintal, onde ele estava. Sentamos em um
dos bancos que estavam ali, virados um para o outro. Respirando fundo, ele
começou:
-Eu tinha dez anos quando isso aconteceu. Minha família era
muito unida e nesse dia eu queria fazer algo especial para eles, para agradecer
por estarmos juntos. Aproveitando que eu era sempre o primeiro a acordar,
decidi que ia fazer um café da manhã, mas eu não sabia cozinhar. Lembrei então
da nossa vizinha, que sempre foi muito alegre e gentil e resolvi pedir a ajuda
dela pra arrumar esse café. E esse foi o grande erro. A vizinha que ela era na
frente de todos não estava lá. Estava uma pessoa má e sem escrúpulos. Hana, ela
me abusou sexualmente. Eu me lembro de como chorava e gritava e ele não me
soltava. Eu só queria que minha mãe me ajudasse e que ela estivesse lá. Depois
desse ato, ela fingiu que nada tinha acontecido e fez o café da manhã que eu
tinha pedido para ela me ajudar. Ela disse que era para eu ser um bom garoto,
para que eu levasse a comida e que eles comessem o quanto quisessem. Ela ainda
ameaçou que se eu falasse para alguém o que tinha acontecido ou se eu comessem
o tal café da manhã, consequências piores do que aquelas viriam.
“Eu voltei para casa e esperei meus pais e meu irmão
acordarem. Lembro-me deles levantarem e verem aquele lindo café e abrirem
sorrisos enormes. Eles me chamaram para comer o delicioso café da manhã, mas eu
disse que não, com medo do que a vizinha tinha falado. Lembro-me de ver todos
eles satisfeitos, me agradecendo, eles felizes. Por fim, lembro-me deles
dizendo que acabaram comendo muito e que iriam descansar. Até hoje eles
descansam. Aquela bruxa os envenenou. A polícia procurou por ela e a
encontraram morta, seu corpo no fundo de um rio. A única coisa que eu agradeço
ter acontecido. Eu não aceitei a morte de meus pais e do meu irmão, eu fiquei
sozinho. A tia Jane veio para cuidar de mim e eu fiz um único pedido: que ela
deixasse meus pais e meu irmão dormindo, na nossa casa. Não suportaria vê-los
enterrados, eu sinto que tudo o que aconteceu é culpa minha. Ainda hoje tomo
remédios para controlar a ansiedade, depressão e tantas outras coisas que me
atormentam. Então Hana, é isso que eu tenho como resposta para o que você viu,
é essa a verdade que te ofereço. É você acreditar ou não. Se você preferir pode
buscar a verdade você mesma, mas espero que acredite em mim.”
Eu olhei nos olhos de Joseph. Eles estavam cheios de lágrimas
e eu via dor, muita dor. A dor de alguém que perdeu tudo sem ter culpa, a dor
de alguém que escondeu isso de todos para que não se sentisse mais culpado do
que já era. O que diria a ele? O que eu poderia dizer? Eu não sabia de nada,
esta era apenas a ponta do iceberg. Estava em minhas mãos o que aconteceria em
seguida. Bastava eu acreditar ou não. Isso era tudo.
