Era assim que se sentia pela manhã, ainda revivendo o que a noite lhe proporcionara. Não que fosse algo muito grande, mas, sim, algo muito significativo, que, não cabendo no peito, transbordava e escorria. Sua alegria estava estampada na alma e no rosto, iluminando o dia e fazendo o trabalho do Sol.
Na verdade, sua alegria era baseada na simplicidade, uma pequena mudança de realidade. Na noite anterior, conseguira ter contato com seus amigos, depois de muito tempo de separação. Bons anos lhe vieram a mente e um aperto de alegria sufocava seu coração. Como estiveram durante este tempo? O que haviam feito? O que havia mudado? Estavam casados? Solteiros? Viúvos? Por onde andavam? Na Europa, Na Oceania? Ou na rua debaixo? Como se sentia uma menina novamente! O entusiasmos de se permitir ser quem já foram e já se esqueceram era algo que impulsionava uma adrenalina maravilhosa, que era ainda mais impulsionada pelo fato de que tudo estava acontecendo de modo rápido e logo seria o momento de se verem.
Pensava, como a internet era um bom instrumento, pois sem ela, nada disso seria possível. Graças às redes sociais, pudera entrar no grupo que tinha sido o seu a muito tempo. Graças à internet, podia ver quem ainda podia estar com ela, com quem ainda teria lembranças e risadas do que já passara.
A juventude tinha sido uma época linda, um tanto complicada, mas doce, sempre doce. Ninguém tinha preocupações, a não ser as lições de casa e os encontrinhos. Os menores problemas podiam ser contornados com um pequenos desvios no caminho. Já os grandes e banais problemas eram suavizados pelos amigos, pela emoção, não sendo suficientes para trazer abalo. Nesse período, começaram e terminaram os primeiros namorinhos, tiveram intrigas, inimizades e amizades, transformações. Ah, essas últimas eram carregadas, sempre extremas, repleta de comportamentos antagônicos. Como éramos felizes e não sabíamos! Deixamos esse tempo passar rápido demais e não nos seguramos a ele porque pensávamos que duraria para sempre. Quem dera, quem dera que durasse... Mas, se olhássemos com cuidado, tais adolescentes ainda habitavam os mesmos corpos. Mais tímidos, é verdade, mas suas vozes não são totalmente caladas e um grito mais alto às vezes sairia sem que se percebesse.
Mas ai, no momento de conter o adolescente, viria o adulto. E que bichinho chato era esse! Sempre interrompendo, se achando dono da verdade da razão! E por vezes somos, mas não entendemos porque não podemos sê-lo sempre. Achamos que deixamos tal juventude para trás há muito tempo e que agora o trabalho acima de tudo, o respeito e cometários feitos sobre nós tem que ser verdadeiros e bem espalhados para que cresçamos. Pensamento tolo! Gastamos nossa responsabilidade com besteiras. E os nossos sonhos? Nossos planos? Nossos amigos? Todos ficaram em lugares diferentes de um mesmo trem, sem ter o direito de falar, só se cumprimentando de forma educada quando impossível evitar a comunicação. Deixamos tudo o que éramos para trás, pois era tais coisas pertencem a juventude e tal ser não é mais parte de nós.
Quem dera que não fosse tarde demais quando percebemos que podíamos ter ouvido o adolescente, mas ai já se foi o tempo certo. Mas nossos corpos não se transformam porque queremos, ele dói por essas memórias. E as lembranças angústias e arrependimentos permeiam nossas mentes. Estamos velhos, sabemos disso, mas não queremos acreditar.
Por isso, os amigos são tão importantes. Não se precisa mais de amores infinitos, de fingirmos sermos adultos, de calarmos sempre o nosso adolescente. Que se dane o que somos e o que seremos. Já é tarde e sabemos disso. Ela sabia e sentia que isso só podia ser um sinal. Que só ela se encontrando novamente com seus amados amigos que há tanto não via, podiam fingir que o tempo nunca havia passado. Quando estivessem juntos,podiam fingir que eram os mesmos, que tudo estava igual e que ninguém era melhor que ninguém. Todos seriam jovens de novo, todos ririam das mesmas besteiras, todos se permitiriam ser. Afinal de contas, quando é que outra oportunidade como essa surgiria?